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Ane: jornalista, paulistana, aquariana, ex-praticante de equitação
Alfredo: cineasta, carpinetano, leonino, fumante assumido, defensor dos benefícios de um par de chinelos e da preguiça no sofá
Isabella: 17 meses de vida; taurina, il nostro piccolo, grande amore
O que Alfredo faz melhor que Ane:
enrolar o spaghetti com o garfo
O que Ane faz melhor que Alfredo:
escovar os dentes sem sujar o espelho do banheiro
O que Ane ainda não consegue fazer em italiano:
falar com o sotaque romano de Antonello Venditti ou digitar com rapidez no teclado projetado para a língua de Dante
O que Alfredo confunde em português:
troca a palavra parabéns por complimentação... tem o seu charme, é claro
Nosso contato: aneliseg@hotmail.com
Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
Italia
Não sei se já comentei isso aqui alguma vez, mas toda vez que faço amizade com algum brasileiro residente em Roma por um motivo ou por outro esta pessoa acaba indo embora. Na maioria das vezes de volta para o Brasil. E este fato coindice com uma notícia que estava lendo outro dia sobre o êxodo de retorno de brasileiros que moravam no exterior. Durante os meus seis anos de vida na Itália, digamos que este é o ano no qual o meu nível de otimismo (assim como aquele da maioria dos italianos) é um dos mais baixos. O governo de esquerda no qual depositava um mínimo de esperança não existe mais, as previsões sobre o custo de vida e o mercado de emprego são preocupantes, a qualidade do conteúdo produzido por uma parte da mídia nacional é deplorável (não aguento mais o lero lero sobre Nicolas Sarkozy e Carla Bruni em pleno horário nobre) e a possibilidade de rever Silvio Berlusconi novamente no poder me deixa de cabelos em pé. Mas mesmo assim a Itália também é terra de Carnaval e de diversão. Me ligaram da escola da Isabella para dizer que terça-feira fazem uma festa e precisava providenciar uma fantasia. Passei o sábado inteiro procurando a tal da roupa…e acabei gripada de novo.A notícia boa é que imprimi a minha tese e agora aguardo que seja publicada a data da discussão da minha laurea.
Então é Natal de novo. E dezembro, pra mim, tem mais de um significado. No próximo dia 31 completo exatamente seis anos de vida na Itália. Me sinto parte da realidade que me circunda, mas é inegável que nesta época do ano a vontade de ter todas as pessoas queridas por perto é mais forte do que tudo. Muitas pessoas que conheço me perguntam se eu vou voltar definitvamente ao Brasil. E hoje, que tenho uma família minha, raciocino de uma maneira um pouco diferente daquela que tinha há algum tempo. Deixei tudo o que tinha (em termos materiais e emocionais) para apostar em um relacionamento. E hoje não me arrependo de nada porque tenho pessoas maravilhosas ao meu redor. Recomecei do zero minha vida profissional, acadêmica. Tive que reaprender o conceito de cidadania. O ano de 2007 me trouxe boas supresas e talvez o melhor de tudo em tornar-me mais madura é o fato de ter aprendido a valorizar aquilo que è realmente importante e a não sofrer tanto com coisas secundárias. E agradeço a todos os amigos que estes anos estiverai por perto.Bom Natal para todos vcs
Estas últimas semanas foram um pouco complicadas. Isso porque nós três enfrentamos um mal estar atrás do outro. Nada muito grave, mas coisas típicas do inverno. Primeiro uma gripe intestinal, depois uma crise de colite, seguida de resfriados, dor de garganta e conjuntivite. Este primeiro ano da Isabella na creche tem sido mesmo um período de provas para os nossos anticorpos. Tudo isso somado à fase final da minha tese e as inevitáveis obrigações de final de ano. Confesso que se pudesse fazer um acordo com todos os nossos parentes, renunciaria tranquilamente a troca de presentes. Compraria algo somente para as crianças e evitaria toda aquela rotina que inclui finais de semana em shoppings lotados e desperdício de dinheiro. Principalmente aqui, que as lojas entram em liquidação e reduzem seus preços em até 70% na metade de janeiro, acho mesmo um desaforo ter que comprar presentes antes desta data. Não sei se esta notícia foi comentada em outros lugares do mundo, mas os caminhoneios italianos fizeram uma greve que durou dias e que paralisou o país. Isso significa que desde os postos de gasolina até as prateleiras dos supermercados ficaram vazios. As mercadorias ficaram bloqueadas e muita gente temia a impossibilidade de passar um Natal como aquele dos outros anos. Também é a época de confraternizações e ontem fui jantar com os outros colegas do jornal para o qual escrevo em um restaurante perto da Piazza Venezia. Estava muito frio, mas a comida era siciliana e os pratos estavam ótimos. Infelizmente não vou poder ir ao Brasil este Natal, como previa, mas principalmente nesta época do ano é lá que voam os meus pensamentos.
La fora chove sem parar e ta um frio danado. Nada melhor do que ficar em casa e devorar o ultimo presente que o Alfredo me deu, o livro "Non dire notte", de um dos meus escritores prediletos: Amos Oz. Bastou eu comentar que queria tanto ler este livro que la foi ele até a Feltrinelli compra-lo para mim. A primeira vez que li um livro seu me emocionei tanto que acabei lendo todos os outros. Depois entao que o conheci de pertinho, durante uma entrevista sua aqui em Roma, passei a adora-lo ainda mais porque apesar de fazer parte de uma cultura muito distante da nossa (ele nasceu em Israel) consegue fazer com que os sentimentos de seus personagens, principalmente aqueles femininos, sejam tao verossimeis quanto os nossos.
Sexta-feira, depois de vários meses, decidi vencer a preguiça e fui cortar o cabelo. Deixei a Isabella na escola e não deixei que a a chuva e o trânsito ainda mais caótico por causa da greve do transporte público me desanimassem. Aproveitei e também revi uma cara amiga brasileira que mora pertinho do meu cabeleireiro. No final do dia comemos alguma coisa rápida e fomos ao cinema depois de um longo jejum longe das telas. A Isa ficou com a nossa vizinha e babá e na dúvida entre un cinema e outro acabamos assistindo o filme “Giorni e Nuvoli”, do diretor Silvio Soldini. Internacionalmente, ele é conhecido por títulos de sucesso como “Pane e Tulipani” e “Bruccio nel vento”. Não sei se já comentei isso alguma vez por aqui, mas quase todos os filmes em exibição nos cinemas italianos são dublados. Sendo assim, nas poucas vezes que vamos ao cinema prefiro um filme nacional, já que soa estranho acompanhar um filme americano, espanhol ou brasileiro em língua italiana. Os outros títulos preferimos assistir na TV via satélite ou em DVD. Mas voltando a “Giorni e Nuvole”, o filme è um retrato fiel de uma das piores pragras italianas, ou seja, a precariedade. Ao contrário de outras nações européias, na Itália conquistar um emprego fixo é quase como ganhar na loteria e as infinitas tipologias de trabalhos temporários são mal pagos e não oferecem nenhuma garantia ou tutela. Milhares de jovens com diploma universitário não conseguem arrumar um emprego que não seja algo como operador de telemarketing. O pior é que, às vezes, o contrato é de um único dia. Obviamente, sem emprego fixo ninguém consegue fazer projetos a longo prazo, planejar o futuro e sair da casa dos pais. Situação análoga è aquela dos profissionais por volta dos 40/50 anos que de um dia para o outro encontram-se desempregados. Depois da introdução do euro e dos contratos de trabalho flexíveis, a cada ano que passa a faixa da população italiana considerada pobre aumenta. Estamos falando, por exemplo, de pessoas que até há algum tempo viviam sem muitas dificuldades financeiras, mas que agora, principalmente depois da crise americana nos financiamentos para a casa própria, enfrentam uma situação dramática. E nós que esperavamos tanto em um governo de esquerda, escutamos Romano Prodi dizer que o seu partido está revolucionando a Itália.
Entao as coisas estao assim. Isabella finalmente terminou o seu periodo de adaptaçao na creche e agora fica la todos dos dias até as quatro da tarde. Esta semana foi a primeira vez que ela dormiu la depois do almoço e por sorte ela adaptou-se super bem ao novo ambiente. Vejo que a cada dia ela aprende uma coisa nova e para nos também tem sido muito bom acompanhar de perto tantos progressos, lembrando que ontem mesmo ela era um bebezinho. Também percebi que, agora que o tempo que passamos juntas é menor, ela aprecia ainda mais estar em casa junto comigo e com o Alfredo. Eu ainda estou me acostumando com a nova rotina. Ao contrario do que pensava, nao me sobra tempo e od dias continuam voando. Entre as obrigaçoes de casa, tese e alguns freelas nem me dou conta e quando vejo ja é hora de buscar a Isa na escola de novo. E assim ja estamos quase no final de outubro. Mudando de assunto, domingo fomos para Carpineto porque meus sogros festejaram bodas de ouro, com direito a uma cerimonia na igreja e a um super almoço com os parentes. Cinquenta anos de vida juntos. Quem sabe eu chego la!